A (IN)VISIBILIDADE DA AUGUSTA
- ASA Produções

- 17 de mai. de 2018
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Atualizado: 13 de jun. de 2018

A mídia primária deve-se ao contato pessoal entre o emissor e receptor da mensagem, onde todos seus gestos, expressões e palavras fazem parte desta comunicação, e todo processo de comunicativo tem seu início nesta mídia, na foto vemos jovens conversando ao lado de um morador em situação de rua, onde é possível notar a expressão no rosto de um deles que sorri, demonstrando felicidade, porém também é possível notar, em destaque, o morador de rua. Analisando todo o contexto, o mesmo está dormindo.
Essa mídia tem o poder de nos resgatar sensações únicas que muitas das vezes são perdidas pela saturação das imagens relacionadas à ela e, conforme Baitello Jr. (2005), o mundo da luz e da imagem tornou-se, pelo medo e pela fadiga do olhar, um mundo no qual cresce desproporcional e exponencialmente o subterrâneo da sombra e do esquecimento. Quanto mais se quer expor, mostrar, tornar visível, tanto mais se consegue apenas aparentar, esconder, simular ou ofuscar.
Ao olharmos um morador em situação de rua nas novelas, filmes e seriados, devido a saturação e conformidade, nosso olhar é de que aquela pessoa está apenas figurando por ali, sendo um objeto no cenário para que a personagem principal passe por ali, porém ao entrarmos em contato físico com essa pessoa, nos é retomado o sentimento de tristeza, impotência, angustia e indignação, pois estamos ali, presencialmente e tendo contato com aquilo que faz parte de nosso cotidiano.

Na mídia secundária, o que fica em evidência é a escrita e o que ela quer dizer. Usando um objeto para transmitir seus sinais sua informação, o homem consegue criar a presença na ausência, conseguindo perpetuar-se no tempo, criando um tempo virtualmente infinito.(BAITELLO JR., 2005)
Isso é muito presente na rua Augusta, porque em todos os lugares encontramos registros diferentes, vindo de pessoas diferentes. Quando vemos esses registros, precisamos desacelerar nosso tempo, pois toda escrita exige decifração – e é por esse motivo que, algumas vezes, paramos para ver algum graffiti, pixo, lambe-lambe ou mensagens escritas à caneta nas paredes da rua Augusta. Todas essas coisas têm algo a dizer, e todas elas falam sobre algo que se sente, que faz parte da vida humana (ou não).
De toda forma, essa mídia traz à tona uma reflexão interessante, porque nos faz pensar sobre quantas vezes desaceleramos nosso tempo para decifrarmos algo. E sobre como ela é importante, porque nos faz parar para decodificar a mensagem que um alguém nos deixou, direta ou indiretamente. A mídia secundária se apoia na primária, e portanto, a presença do corpo é marcante. Mãos e corpos pintados em forma de manifestação, que então viram fotografias em jornais impressos, lambe-lambes, cartazes, bandeiras... são atos simbólicos que unem essas duas mídias numa só.

"Ao abdicarmos da "lentidão" do tempo presente, estamos perdendo nossa consciência corporal, perdendo nossa acuidade sensorial, e, ao perdermos os sentidos de proximidade, passamos pelas coisas sem sermos capazes de nos vincularmos a elas." (CONTRERA, 2002)
Com a constante evolução dos meios midíaticos passou-se a ter um constante aumento na velocidade de transmissão de informações. O surgimento de aparatos como TV, Rádio e Internet tornaram as distâncias cada vez menores ao ponto de sermos constantemente bombardeados por sinais e informações com notícias sendo transmitidas em tempo real seja por telejornais ou pelas redes sociais.
O que ocorre na rua Augusta é algo que já não é mais inerente à ela, mas a todo o resto da humanidade. Estar com um celular em mãos ou carregá-lo no bolso faz parte de uma rotina essencial para o ser humano, assim como chegar ao trabalho e mexer no computador, também. O que era "virtual" agora é "real"; e então os tempos se misturam e perde-se a noção do mesmo, ao passo de que a correria passa ser mais do que normal - torna-se essencial.

BAITELLO JR., Norval. A Era da Iconofagia: Ensaios de comunicação e cultura. São Paulo: Hacker, 2005
CONTRERA, Malena Segura. Mídia e pânico: saturação da informação, violência e crise cultural na mídia. 1ª Edição. São Paulo: Annablume, 2002




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